O que é o laboratório clínico de investigações animistas
Entender o espaço clínico além do setting é a base desta proposta de laboratório clínico de investigação animista. O pensamento clínico pode ser exercido a qualquer momento, em qualquer contexto ou local físico.
Giuliana de Paula Oliveira
7/22/20253 min read


Entender o espaço clínico além do setting é umas das base desta proposta de laboratório clínico de investigação animista. O pensamento clínico pode ser exercido a qualquer momento, em qualquer contexto ou local físico. E nesse laboratório é feito um esforço para que possamos exercer a reflexão clínica de forma outra que não apenas nas lógicas individualizantes.
A proposta se inspira na esquizonálise e na ética da psicologia institucional, permitindo pensar continuamente as relações politicamente. Trata-se de um exercício reflexivo sobre como forças do sistema se manifestam, operando por meio de lógicas de poder e hegemonia em nossas relações e corpos. Logo, pensar a respeito da alma pode ser feito tendo atenção aos riscos de captura até mesmo desse termo - alma.
Convocamos politicamente a reflexão sobre nossa relação com as tramas de poder: como elas atuam em nós? Essa é a primeira questão clínica relevante para este laboratório. E como elas podem atuar quando lidamos com questões anímicas ou em outras palavras, espiritualistas?
Pensar-se clinicamente não exige um setting individualizado: é um processo acessível em qualquer momento. Isso amplia o acesso à clínica, desvinculando-a do analista como especialista. Também é possível ampliar a noção de saúde e terapêutica, abrindo espaço para cosmologias diversas comporem a produção de saúde e subjetividade.
Povoar a clínica é a criação de um campo para que o exercício clínico seja coletivo, popularizado, como Paul Preciado evoca em Esferas da Insurreição de Suely Rolnik: um gesto manifesto de “colocar o divã na rua” (2018). Logo, tal gesto nos convoca à responsabilidade em como praticamos, inclusive, nossa fé e devoção.
Além de desviar do elitismo de uma clínica individualista e menos acessível a grande parte das pessoas, essa proposta abre espaço para presenças diversas no campo clínico. Questionamos a formação do pensamento científico hegemônico, centrado em um modelo de homem, o homem branco, e buscamos visibilizar saberes marginalizados. Com base em Donna Haraway (1995), reivindicamos os “saberes localizados”, trazendo à tona vozes que ficaram fora da ciência antropocêntrica: saberes quilombolas, de terreiro, indígenas, xamânicos, de mulheres, pessoas lgbtqiapn+, seres não humanos e pessoas mortas.
Evocaremos as agências não-humanas e narrativas não convencionais, assim como acontece em meu consultório por meio da presença dos analisandos. Nesse contexto, fui notando que era preciso compreendê-las além das comuns lentes simbólicas e restritamente analíticas, interpretativas. Em James Hillman (2010, 2019, 2022), pós‑junguiano, encontrei outra abordagem: a alma como multiplicidade de agências, formada por participantes ativos na produção de subjetividade. E não como comunicante de símbolos a serem interpretados. Hillman propõe um politeísmo psíquico, no qual somos coletividade de subjetividades, somos alma, não temos alma.
Inspirado por esse viés animista, o laboratório assume-se como um experimento clínico e pautado na seguinte ética: um espaço aberto à presença de seres não-humanos e mortos. Esse compromisso ético se intensifica considerando as subjetividades urbanas e opressões colonial-capitalistas que as atravessam. Vamos pesquisar como essas agências não-humanas e de pessoas mortas se manifestam e se articulam na experiência clínica.
Por fim, é preciso tensionar temas como espiritualidade e saúde mental: o que é inconsciente e o que é espiritual? O que é saúde e o que é potência? Este laboratório clínico de investigação animista se constitui como um espaço de pesquisa e experimentação, em que investigamos criticamente as formas pelas quais agentes humanos e não-humanos compõem e transformam a clínica. É nesse espaço de reflexão crítica que pretendemos trabalhar com interessados e interessadas.
Referências Bibliográficas
HARAWAY, Donna. Saberes Localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu. 1995
HILLMAN, James. Psicologia arquetípica: uma introdução concisa. Tradução Lúcia Rosenberg, Gustavo Barcellos. Editora Cultrix. São Paulo, 2022
HILLMAN, James. Re-vendo a psicologia. Tradução Gustavo Barcellos. Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 2010
HILLMAN, James. Uma investigação sobre a imagem. Tradução Gustavo Barcellos. Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 2019
ROLNIK, Suely. Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada. n-1 edições, 2018
